Boas expectativas

Reflexões

Há épocas em que começamos a iniciar ciclos e, ao fazê-lo, supomos que um novo tempo virá, e que esse novo tempo será melhor. Se há uma coisa boa para a história humana é ter expectativas positivas, aquilo que eu expecto, aquilo que eu aguardo que venha, e aquilo que virá, é claro, se eu for buscar. A expectativa positiva nos agrada imensamente e quase sempre é marcada pela ideia de esperança.
Nesse período, seja o início do dia, da semana, do ano, sempre nos ajuda pensar no que pode de fato vir a ser melhor. Essa maneira humana de desejar, ir buscar aquilo que seja melhor, nos inspira, nos dá alento e nos retira um certo desânimo.
Quando uma época vai iniciando e vemos muita coisa ruim, encontramos algumas pessoas das quais não gostamos, ou que praticaram atos contra a dignidade humana, que tiveram condutas eticamente reprováveis, ficamos meio desalentados.
Nessa hora, vale lembrar do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547–1616), na segunda parte de Dom Quixote (1605), em que escreveu: “Deus atura os maus, mas não para sempre”.
Essa ideia, mais do que religiosa, é uma expressão ética. A possibilidade de se ter a maldade sempre como vencedora precisa ser entendida como descartável, como algo que colocamos fora.
Boas expectativas; afinal, um novo tempo precisa, sim, ser feito, e pode ser feito.

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A alma também é feita de átomos

Filosofia

Demócrito de Abdera (c. 460–c. 370 a.C., filósofo grego)

É possível subdividir urna porção de espaço físico ou um objeto material qualquer ao infinito, em partes cada vez menores? Ou existe um limite último?
Demócrito chegou à elaboração da hipótese atômica tentando resolver os paradoxos postos por Parmênides. Encontrou a solução ao negar que, para a matéria do mundo físico, valesse a mesma divisibilidade infinita de que gozam os elementos matemáticos. Pode-se subdividir um número ao infinito, mas partindo-se de uma partícula de matéria progressivamente chegasse a um mínimo indivisível (e invisível): o átomo, expressão grega que significa, literalmente, “sem divisão”. O átomo, identificado dessa forma, torna-se, com Demócrito, o elemento básico para urna série de complexas especulações: a sua existência pressupõe, antes de tudo, o vazio (no qual os átomos possam movimentar-se), implica também na homogeneidade estrutural do universo — formado por combinações diversas dos mesmos átomos — e sugere a existência de infinitos mundos.
O texto abaixo foi extraído de Testemunhos e fragmentos.

Esperança

Reflexões

Há uma máxima que sempre ouvimos: “quem espera sempre alcança”, embora haja uma advertência clássica feita num ditado italiano que diz “piano, piano si va lontano, ma non si arriva mai”, ou “devagar se vai longe, mas não se chega nunca”.
A ideia de que quem espera sempre alcança tem algo de arriscado: a noção de esperança como espera, como ficar aguardando, ficar na expectativa. A ideia de esperança deve ser ativa. Esperança como busca, como construção, como o intento que se realiza.
Essa máxima de “quem espera sempre alcança” pode passar uma ideia de que basta sentar e aguardar, e as coisas seguirão seu caminho. Não é verdade. Sabemos que há muitas coisas que, se apenas esperarmos, elas não acontecerão.
É preciso trazer a esperança como verbo e não apenas como substantivo. Portanto, o verbo esperançar é ir atrás, buscar, ter persistência, ter paciência, ter resistência, mas, acima de tudo, ter energia para se movimentar na direção daquilo que se deseja.
É preciso esperançar.

“A montanha mágica” (Thomas Mann, 1924)

Livro da semana

Minha edição: Companhia das Letras (2016)

A montanha mágica começa com a viagem de Hans Castorp de Hamburgo a um sanatório de tuberculosos nas montanhas suíças. As três primeiras semanas do que seria uma visita temporária se arrastam. Mas Castorp logo é seduzido pela vida repetitiva e estranhamente encantada dos pacientes. Sua imaginação é ativada por uma série de personagens vivamente delineados que se internam para se recuperar, e para morrer, na montanha.
A obra pertence à tradição do romance de formação, embora a iniciação de Castorp não seja no mundo de ação e dos eventos — o clamor da Primeira Guerra Mundial iminente se restringe a algum lugar fora da quietude do sanatório —, mas no mundo das ideias. Thomas Mann usa os debates entre pacientes para explorar as preocupações filosóficas e políticas da época: humanismo versus a ameaça real do absolutismo. Castorp também custa a entender o que significa se apaixonar num lugar marcado pela doença e pela morte: a lembrança perturbadoramente íntima que Clawdia Chauchat oferece ao namorado é um raio X de seus pulmões opacos.
A perspectiva da volta de Castorp à planície é procrastinada e, à medida que as semanas se estendem em meses e depois em anos, o tempo parece ter parado. E vemos com Castorp a intensidade dos momentos formativos — trágicos, eróticos, mundanos, absurdos — de seus sete anos no sanatório, congelados num presente intensificado.

Como a vida nasceu do vórtice atômico

Filosofia

Demócrito de Abdera (c. 460–c. 370 a.C., filósofo grego)

A hipótese atomista explica a estrutura dos corpos, mas pode explicar também a sua origem? O que leva os átomos a se agregarem para formar compostos estáveis?
Para responder a essas perguntas, Demócrito formulou a teoria dos vórtices, que obteria um grande sucesso no meio científico: a agregação dos átomos em corpos sólidos e compactos deve-se a fenômenos puramente mecânicos, particularmente à força centrípeta agregadora desenvolvida pelo movimento em vórtice. Antes de tudo, Demócrito tinha interesse em trazer à luz a afirmação de que o nascimento da vida depende de processos automáticos (putrefação, fermentação), os quais não requerem a intervenção de qualquer inteligência divina.
O texto abaixo foi extraído de Testemunhos e fragmentos.

Esforço criativo

Reflexões

É relativamente comum as pessoas dizerem “eu estava esperando uma inspiração para fazer esse texto, para começar essa obra, para pensar na organização de um jantar, para refletir sobre um projeto…”
Ora, existe um esforço imenso para ser criativo e, mais do que isso, para que a inspiração possa ter o seu lugar.
Vale citar aqui Igor Stravinsky (1882–1971), um compositor russo que morreu em Nova York, uma personalidade inesquecível da música sinfônica, com uma influência imensa em toda a música contemporânea. Alguém que, com seus grandes balés e peças, deixou um legado extremamente criativo.
Mas ele mesmo dizia: “Um leigo pensaria que, para criar, é preciso aguardar a inspiração. E um erro. Não que eu queira negar a importância da inspiração. Pelo contrário, considero-a uma força motriz, que encontramos em toda a atividade humana e que, portanto, não é apenas um monopólio dos artistas. Essa força, porém, só desabrocha quando algum esforço a põe em movimento”.
O que Stravinsky chamava de trabalho é o esforço a ser feito para que a inspiração seja colocada em movimento. A capacidade de fazer a inspiração desabrochar, emergir, vir à tona quando nós conseguimos, com esforço, fazer com que ela se desate.
Não é sentar e aguardar, não é repousar e, então, seremos possuídos por um momento de grande movimento cerebral. Não é só isso, é colocar-se no esforço.

O homem, nascido livre, está acorrentado

Filosofia

Jean-Jacques Rousseau (1712–1778, filósofo suíço)

O desenvolvimento da civilização é progresso ou decadência? É possível um retorno à instintividade natural?
A tarefa da filosofia é libertar o homem das cadeias impostas pela civilização, devolvê-lo à primitiva liberdade. Certamente, não é mais possível um puro e simples retorno à natureza original, a uma instintividade feliz e inconsciente; deve-se formular um pacto, um contrato social, que leve em conta a irreversibilidade das transformações produzidas pela história. Se o retorno ao instinto não é possível, tampouco o uso de uma racionalidade férrea e fria pode dar uma resposta verdadeira ao dilema fundamental da política: como garantir, ao mesmo tempo, a segurança coletiva e a liberdade individual. Rousseau desconfia das soluções que depois serão denominadas democráticas: na sua opinião, não se trata de explicitar quais liberdades individuais devem ser submetidas a controle e quais comportamentos, ao contrário, devem ser deixados ao livre-arbítrio subjetivo. Se não se quer que o contrato social seja sempre recolocado em discussão, a renúncia à liberdade individual deve ser total e, obviamente, recíproca, válida para todos os cidadãos. A proposta de Rousseau, mesmo caracterizada pelo autoritarismo, não coincide com as teorias absolutistas: a solução não está em transformar os cidadãos em súditos, entregando todo direito individual ao soberano, mas em realizar uma profunda mutação antropológica do ser humano, de modo a tornar inoperantes os vícios produzidos pela sociedade. Somente um homem não mais educado na escola do egoísmo e da propriedade privada poderá fazer escolhas políticas com base não nos seus interesses particulares, mas tendo em vista o bem-estar do conjunto da sociedade, segundo o princípio da vontade geral.
O texto que se segue foi extraído de O contrato social.