A história é luta de classes

Filosofia

Karl Marx (1818–1883, filósofo, sociólogo, economista e político socialista alemão)

É possível definir a lei do desenvolvimento da história?
O Manifesto do Partido Comunista (do qual foi extraído o texto apresentado nesta publicação) representa o mais perfeito exemplo de divulgação do Materialismo Dialético, o coração da doutrina marxista. De um lado, segundo Marx, a interpretação da história exige a adoção de um critério materialista, pois o motor do desenvolvimento histórico reside nas condições econômicas concretas, e não nas convicções ideais, nas normas jurídicas ou nas batalhas políticas. Por outro lado, todavia, a evolução das estruturas produtivas não se dá segundo esquemas mecanicistas, mas acompanhando as leis da dialética descobertas por Hegel (1770–1831). O mundo feudal, o capitalismo burguês e a futura sociedade comunista são respectivamente a tese, a antítese e a síntese de uma tríade dialética global. Todo momento histórico possui uma identidade própria específica, mas desenvolve no seu interior aquelas contradições que, com o tempo, produzirão a sua superação. Logo, a dialética hegeliana deve ser mantida, mas invertida, colocando como sujeito do movimento histórico real não o Espírito, a Ideia ou o Absoluto, mas o desenvolvimento da economia.
Segue abaixo um trecho de sua obra.

Entendimento

Reflexões

Vez ou outra, a pessoa diz: “Eu li, mas não consegui entender tudo”. Claro, nenhuma pessoa tem a capacidade de entender todas as coisas que estão num texto, num material, num livro, e isso não é sinal de ignorância. Admitir que não entendeu tudo é sinal de sapiência. Afinal, cada texto, cada livro contém uma série de códigos, de referências internas, tem um repertório de ideias que não está ao alcance de qualquer pessoa e impossibilita seu total domínio. Nesse sentido, ler e não entender por completo nem sempre é ignorância. Em muitos momentos, é sinal de sabedoria, porque exige voltar àquilo. Há uma longa citação de um moralista parisiense, Jean de La Bruyère (1645–1696), na qual diz: “Os tolos leem um livro e não o entendem. Os espíritos medíocres creem entendê-lo perfeitamente. Os grandes espíritos às vezes não o entendem inteirinho. Eles acham obscuro o que é obscuro como acham claro o que é claro. Os espíritos afetados querem achar obscuro o que não é e não entender o que é muito inteligível”. Por isso, nada de arrogância, mas também nada de imaginar que não se é capaz de, em alguns momentos, entender algo por completo.

A filosofia nasce do assombro

Filosofia

Aristóteles (384–322 a.C., filósofo grego)

Por que os homens desejam conhecer? De onde vem a filosofia?
O desejo de conhecer é inerente à natureza humana e nasce do assombro que sentimos diante da beleza do mundo. Todo conhecimento produz uma sensação de prazer, seja quando se trata de uma simples percepção, seja, com maior razão, quando se alcança a iluminação do espírito a partir da pura intuição intelectual. Filosofavam, também, as pessoas nascidas antes do advento da filosofia, porque o ser humano não vive sem questionar o mundo que o cerca. Não se pode viver sem filosofar, ao menos nas sociedades economicamente desenvolvidas. Segundo Aristóteles, como a reflexão filosófica é uma atividade desinteressada, não imediatamente útil à resolução dos problemas da vida cotidiana, é necessário que o homem resolva os problemas de sobrevivência antes de se dedicar a essa prática. O texto que segue foi extraído de Metafísica.

Conhecimento vs. ignorância

Reflexões

Quanto mais conhecemos, mais nossa ignorância se alarga: esse é um dos paradoxos da ciência e do conhecimento em geral. Quanto mais sabemos sobre algo, mais sabemos o quanto não sabemos sobre aquilo mesmo. Por exemplo, nos últimos 500 anos, nós tivemos várias invenções que nos fizeram enxergar o que não enxergávamos. Duas coisas são sempre simbólicas: o telescópio, que nos fez enxergar no céu muito além do que a nossa visão permitia, e o microscópio, aquele que nos fez olhar para situações minúsculas, que antes não conseguíamos capturar. Até se diria, há 500 anos, “agora que nós temos o microscópio e o telescópio, nós estamos conhecendo mais”, mas há aí um paradoxo positivo dentro da ciência. Quanto mais o microscópio nos levou a aprofundar a capacidade de enxergar o mundo diminuto, mais ficamos sabendo de coisas que não sabíamos; alargou-se ali a nossa ignorância. Nós ficamos sabendo que havia todo um mundo aqui antes de nós. Porque não víamos, não sabíamos que existia e, portanto, não precisávamos compreender. O mesmo vale com o telescópio. Quando ele passou a permitir uma ampliação da nossa visão sobre o universo, sobre a abóbada celeste, passamos também a perceber aquilo que nem sabíamos que existia. Esse paradoxo é muito marcante. Mais conhecimento, mais ignorância. Mais se sabe, mais se sabe aquilo que não se sabe e mais se amplia o nosso território daquilo que se desconhece. Esse paradoxo ajuda bastante a saber que tanto o conhecimento é infinito quanto a ignorância.

Qualidades objetivas e subjetiva

Filosofia

Galileu Galilei (1564–1642, cientista italiano)

Existem percepções não subjetivas? Determinadas qualidades da matéria (como extensão e peso) podem ser chamadas de objetivas?
A questão da existência, na natureza, de qualidades objetivas (extensão, forma, peso, medida) ao lado de subjetivas (cor, sabor, e assim por diante) foi uma das mais discutidas na história da filosofia. Com efeito, enquanto o sabor de um alimento produz claramente uma avaliação subjetiva, parece sensato afirmar que é possível determinar de modo objetivo a extensão de um corpo. Nesta passagem, Galileu sustenta a existência de qualidades objetivas, analisando o funcionamento do tato, geralmente considerado o menos confiável entre os cinco sentidos. De fato, é suficiente tocar um objeto para perceber de imediato a sua forma porque, mesmo de olhos fechados, ninguém confunde uma esfera com um cubo. Por outro lado, o contato com os objetos produz também reações absolutamente subjetivas: as cócegas, por exemplo, dependem mais do estado do sujeito (da reatividade da sua pele) que da natureza do objeto.
O trecho abaixo foi extraído de O ensaísta.

Ódio ao sucesso alheio

Reflexões

O maestro e compositor Tom Jobim (1927–1994), homem de sucesso imenso, absolutamente merecido, tem uma frase de que eu gosto de lembrar: “No Brasil, o sucesso é uma ofensa”. Em várias situações, o sucesso, em qualquer área, pode ser considerado ofensivo.
Pessoas acabam se irritando com quem obtém algum sucesso. E sucesso não é só ser famoso, é ser bem-sucedido naquilo que faz, na arte, no negócio, na tecnologia, na ciência, em todas as dimensões.
Tom Jobim foi muito perspicaz ao capturar essa possibilidade refletida em sua frase. Será que é assim? Podemos retomar o pensamento de Amado Nervo (1870–1919), poeta mexicano do início do século passado, que na obra Ódios artísticos dizia: “Já que não podemos ser todos notáveis, que ninguém o seja. Esse é o tema dos que detestam e combatem os que se elevam”.
Por essa lógica, se não podemos ser todos notáveis, então, que ninguém o seja, isto é, colocar de uma maneira mais rasa, mais superficial a nossa condição.
Dessa forma, portanto, não admirar a genialidade, a capacidade criativa, o esforço infindo, a força contida numa decisão e numa dedicação grande.

Quando a ciência produz não senso

Filosofia
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Edmund Husserl (1859–1938, filósofo alemão)

De onde nasce a crise da civilização contemporânea? Em que sentido se pode falar de crise da ciência?
A crise da ciência não é interior às disciplinas específicas, porque ninguém coloca em dúvida a incontestabilidade das teorias individuais demonstradas pelos cientistas. Ao contrário, a crise diz respeito ao significado geral da ciência, à sua capacidade de dirigir-se ao homem real e também à sua espiritualidade, de responder às suas questões fundamentais, sempre relativas aos significados, não aos fatos. Se, por exemplo, o estudo da história, como afirma a ciência positivista, deve limitar-se aos fatos documentáveis, reduzir-se-á a história inteira da humanidade a uma sucessão cíclica de civilizações que a cada vez nascem, desenvolvem-se e morrem, sem nem mesmo tentar identificar o sentido de tal percurso. É verdade que não existe em absoluto um sentido da história e que qualquer pesquisa de um seu significado último se reduz a uma interpretação, um ponto de vista condicionado, se não por outra coisa, pela subjetividade do historiador. Tudo isso é o que o Positivismo procurava evitar, perseguindo um ideal de impessoalidade e objetividade da ciência; todavia, observa Husserl, é, em suma, a única coisa que conta, quando não se considera o estudo da história como uma atividade desligada da vida.
O texto seguinte foi extraído de A crise das ciências europeias.